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Postado por cepcos
A “cura” da homossexualidade

Bem recentemente, um grupo de “cientistas” afirmou ter alcançado pleno êxito no tratamento e “cura” de homossexuais, conseguindo fazer com que estes apresentassem um comportamento heterossexual apenas com um trabalho de diálogo terapêutico. Novamente o alvoroço foi geral dentro dos círculos científicos e dos grupos de saúde, até que, poucos dias depois do anúncio, o tal grupo de “cientistas” foi desmascarado quanto a sua ligação com uma religião que determinaria, de alguma forma, os parâmetros do dito tratamento.
Esse caso em especial, teve repercussão mundial graças ao anúncio feito pelo grupo de profissionais e, também graças a esse anúncio, veio à tona a “fraude científica” que ele encobria. Porém, se faz necessário elucidar que, dentro de um certo anonimato, podemos encontrar inúmeros profissionais que afirmam conseguir esse mesmo resultado com pacientes homossexuais. Na maioria das vezes, ilustram o seu sucesso com alguns poucos elementos que garantem ter trocado o foco do seu desejo. Também, utilizam-se de alegorias pobres e sem fundamentação para afirmar a cura da orientação sexual, sendo que, a própria Organização Mundial de Saúde não a considera como uma doença, distúrbio ou perversão.

Interessante citar alguns aspectos que ainda alimentam esta polêmica. O primeiro deles refere-se principalmente aos indivíduos que, embora apresentem um caráter homoerótico, sofrem demais com isso. São pessoas que de certa forma não suportam o preconceito que impõem sobre si mesmos. Vivem terríveis crises ligadas à culpa, especialmente quando dão vazão ao seu desejo. E, quando a educação ou a vivência dentro de algumas religiões é muito intensa, o sentimento de culpa é multiplicado.

Fica óbvio que quando um paciente com este perfil chega ao consultório, já se encontra predisposto a uma mudança de comportamento. Ele busca no profissional apenas o apoio e as forças que precisa para a almejada transformação e, quase sempre, desconsidera o seu desejo, a sua constituição mais íntima. Em hipótese alguma, esse paciente busca seu auto conhecimento ou uma investigação que o leve a descobertas sobre sua sexualidade. Quer apenas mudar o foco do seu desejo.
Quando um paciente assim aparece, por vezes é difícil oferecer-lhe a ajuda que realmente necessita, posto que ele está escolhendo o alvo que quer atingir. Mesmo assim, o compromisso ético do profissional é a promoção do bem-estar dessa pessoa.

Esse indivíduo é o mesmo que se apega às soluções mágicas, como por exemplo a influência religiosa, para conquistar uma vida heterossexual “digna”. Em resumo, ele não se aceita homossexual.

Um outro aspecto que precisamos abordar, refere-se ao campo sócio cultural. Apesar dos grandes avanços de nossa sociedade na superação do preconceito, há ainda muito que se trilhar. Hoje, o contato das pessoas com as diferentes orientações sexuais é muito mais amplo do que há cinco/dez anos atrás. Praticamente todas as pessoas conhecem pelo menos dois homossexuais (ainda que não o saibam oficialmente). Mas, conhecer e conviver ainda são ações muito distantes e distintas para alguns. Ainda encontramos grupos familiares e fraternos que segregam o membro que seja diferente. Muitas vezes, para não enfrentar o preconceito e a discriminação do grupo, o homossexual cede à pressão sócio cultural e tenta viver como heterossexual. O sofrimento, para este indivíduo, reside num constante desejo proibido, que se em algum momento for vivenciado, não pode ser descoberto. Ele quer viver sua homossexualidade, mas não pode ou não consegue.

É claro que em outros lugares do mundo a visão sobre a homossexualidade difere da nossa cultura e sociedade, mas quase sempre, o padrão de aceitação se repete da seguinte forma: a pessoa homossexual que é distante do grupo é aceita, mas àquela que é próxima ou pertencente ao grupo, é vetado o direito de ter uma orientação sexual diferente. A grosso modo, “na casa do vizinho pode; na minha não”. É neste aspecto também que podemos localizar os homofóbicos nos seus mais variados graus.

Por fim, o mais sério dos aspectos que ainda alimentam esta polêmica refere-se aos profissionais, já anteriormente citados, que, descartando a ética e as normas propostas pelos seus respectivos conselhos, acreditam-se detentores de conhecimentos e técnicas que podem mudar a orientação sexual de uma pessoa. São profissionais, antes de mais nada, preconceituosos e equivocados. Na maioria das vezes misturam conceitos e crenças pessoais com seu conhecimento técnico, resultando num conjunto de ações “terapêuticas” desastrosas. Igualmente, são profissionais ignorantes que, pela própria atuação contrária às normas estabelecidas pelos conselhos de classe, revelam sua falta de informação e preparo para o trabalho a que se propõem.

Para encerrar este artigo, selecionei alguns fragmentos da resolução do CFP (Conselho Federal de Psicologia), que orienta aos Psicólogos no sentido da superação das crises e preconceitos que permeiam a homossexualidade. Com o conhecimento e a aplicação dessa resolução, certamente teremos profissionais mais competentes para ajudar as pessoas na conquista de uma vida mais saudável e feliz quanto à expressão de sua sexualidade.

Artigo criado pelo psicólogo Ralmer Nochimówski Rigoletto