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Postado por cepcos
Aplicativos “Lulu”, “Lulu Fake” e “Tubby”

images (2)No dia 27 de novembro, no Brasil, tivemos o lançamento oficial do aplicativo “Lulu”. Desde esta data, o aplicativo “deu o que falar”. Ele já foi baixado mais de 100 mil vezes na loja Google Play, para aplicativos Android, é o campeão de downloads gratuitos na Apple Store e já tem mais de 500 mil usuários conectados via Facebook. Mas não foi somente no Brasil que este aplicativo fez sucesso. Nos EUA, onde foi criado em fevereiro deste ano, o aplicativo já foi baixado por mais de 1 milhão de garotas e está nos celulares de uma em cada 4 garotas universitárias. Desta maneira, com esse grande “BOOM”, considero importante refletirmos um pouco sobre essa “nova moda” um tanto delicada.

O Lulu é um aplicativo para garotas “avaliarem” os homens. O aplicativo permite que os usuários atribuam notas (anonimamente) aos rapazes e também tenham acesso às demais avaliações. Elas respondem a questões de múltiplas escolhas como: senso de humor; boas maneiras; defeitos; nível de comprometimento; entre outras. Muitos homens se sentiram ofendidos, agredidos, e tendo sua intimidade invadida, e inclusive já foi aberto um processo.Portanto, aqui vai uma dica: os homens que não quiserem ter a sua privacidade invadida com tal exposição podem retirar o seu perfil da rede.

Além do problema de os homens se sentirem ofendidos e o processo, tivemos outras consequências, quase que imediatas à criação deste aplicativo, que foi a criação de mais dois aplicativos semelhantes.

O site Lulu fake foi criado para os rapazes que querem comprar, literalmente, boas avaliações no aplicativo. É para se pensar, não é mesmo? Estão comprando boas avaliações de si mesmos?!

Mas a história não para por aí. Em resposta ao aplicativo Lulu, um grupo de Brasileiros criou o aplicativo “Tubby” (nome em inglês do personagem Bolinha, amigo da Lulu). Assim como a polêmica versão feminina, o Tubby usa informações do Facebook para que os rapazes possam avaliar as meninas, das quais são amigos na rede social. O tubby estava para ser lançado esta semana, mas foi concedida uma liminar proibindo sua disponibilização em todo o Brasil. Ao acatá-la, o juiz considerou a possibilidade do aplicativo causar “dano irreparável ou de difícil reparação, uma vez que depois de ofendida a honra de uma mulher por intermédio do mencionado aplicativo, não haverá como repará-la.”. O curioso é que o aplicativo seria praticamente igual ao Lulu, mas para homens, e somente o Tubby foi considerado perigoso por poder causar “dano irreparável”. Estranho, não?!

Bom, acho que deu para ter uma noção do cenário que estes novos aplicativos criaram.

Esta semana eu dei duas entrevistas falando sobre estes aplicativos, e uma das perguntas foi a seguinte: “Por que este aplicativo está causando tanta polêmica e tantos acessos?”. No fundo, estamos falando novamente de vários pontos delicados da sexualidade como:

  • Sexismo – falando de maneira bem simples, é a “guerra dos sexos”. Um aplicativo que somente pode ser utilizado por mulheres (Lulu) ou por homens (Tubby) para, de maneira geral, expor a sua opinião sobre outros, publicamente, inclusive sobre a intimidade. Um dos motivos do Lulu ter dado tanta polêmica tem a ver com o machismo: “como assim, as mulheres vão dar notas aos homens?”;
  •  Banalização da sexualidade – O que deveria ser tratado como algo do fórum íntimo, pois está relacionamento a relacionamento, sexualidade e intimidade, está sendo exposto, como se fosse uma brincadeira, mas possivelmente uma de mal-gosto;
  •  Seres humanos como objetos – as pessoas e as relações estão sendo tratadas como objetos, passíveis de comprar, avaliar, dar nota, etc. Isto nos leva a pensar: quais são os parâmetros usados para essa avaliação, já que estamos falando de algo tão único, singular e relativo?
  • Generalizações – estamos usando números para algo que é imensurável, que são sentimentos, experiências, sensações que cada um, e cada casal, sente diferentemente. Assim como um beijo pode ser sem graça com tal pessoa, uma outra pode achar que beijar esta tal pessoa foi o melhor beijo da sua vida. O que aconteceu? A pessoa melhorou magicamente e beijou fantasticamente, ou existe algo a mais, como o “encaixe” entre as pessoas?
  • Substituição do olho no olho – falar sobre os “atributos” das pessoas não é algo novo. Sair com alguém e depois contar para amigos e, familiares é algo extremamente comum, o compartilhar os sentimentos e impressões. Porém, antes você escolhia para quem contava, e normalmente era para poucas pessoas, mais intimas, de confiança, e não para todas, para o público e nem para o vazio (um aplicativo). Um dos motivos para as pessoas contarem para seus amigos era para externalizar seus sentimentos e conversar com as pessoas, ouvir muitas vezes a sua opinião. Mais uma vez, compartilhar! Onde fomos parar?

Bom, eu quis trazer algumas reflexões que acredito serem muito importantes. Não devemos deixar algo que está movimentando tantas pessoas, que está causando tanta repercussão e que traz entre as linhas questões muito delicadas como as que citei acima, nos levar por impulso – pelo conhecido efeito manada – sem pararmos para pensar sobre o assunto.

Afinal de contas, quem faz a sociedade somos todos nós, juntos. Como queremos que ela seja? Qual é a sua opinião?

Artigo criado pela psicóloga e terapeuta sexual Paula de Montille Napolitano